segunda-feira, fevereiro 19, 2018

MÊS APÓS MÊS - O CÉU

E o tempo passa, escorre e esvai-se 
pelo rasgão que se abre, sem dó, neste mar.
Nesta distância que não se encurta,
nesta ausência que não desiste de gritar,
que não desiste de doer e se furta
ao balsamo do tempo a resvalar.

E as memórias, que vestem a alma,

são frágeis véus de fosca neblina,
são pinceladas de um pintor louco,
são os passos de uma criança franzina.
São olhos quebrando a pouco e pouco
desdobrando a saudade que se amotina.

E as nuvens encobrem as estrelas, lá no alto,
lá em cima, brilhando em harmonia,
faça sol, venha a chuva, sopre o vento,
elas olham, velam, em silenciosa sintonia.
Mas o tempo, passando, continua avarento,
trancando em si a paz, em murmurada litania.

O tempo, passa, escorre e esvai-se, pelo rasgão de uma vida.

(às minhas estrelas)


Lágrimas de lua



Imagem da net



segunda-feira, fevereiro 05, 2018

PERDIDA DO PARAÍSO


Do piano, que não sei tocar, arranco as notas
de uma melodia estranha. Quem me inspirou a alma?
Um alquimista? Um poeta maior? Um anjo louco?
Não sei. Apenas trilho um ritmo, novas rotas,
como navio fantasma sem âncora nem leme, na palma
da minha mão. Buscando o oblívio, a solidão ou o arroubo
de um amor tardio e vagabundo: sem rota nem rumo,
caindo para o horizonte, para o vazio, onde me banho e perfumo
de jasmins, rosas, violetas e flor de laranjeira.


E a breve melodia ecoa nas teclas do piano que não toco,
escorre pelas paredes de brancas lembranças,
como garças; como gaivotas ancoradas no frio.
Soltam-se sons de névoas e brumas de um baú barroco,
onde guardo as memórias enfeitadas de esperanças:
vãs esperanças. Vagas esperanças, fluindo como um rio
onde me perco e me encontro. Onde mergulho e não respiro.
E a melodia ecoa, como espinhos aguçados onde me firo.

Ao piano, que não sei tocar, a minha alma repousa inteira.

Lágrimas de lua

Imagem retirada da net


sábado, janeiro 20, 2018

MINHA AVE DO PARAÍSO

A ave perde as belas penas; uma a uma devagar,
caem como lágrimas de um olhar que já não é.
Perdeu o voar, perdeu o doce cantar.
Apenas respira, débil, entre soluços de infinito,
num limbo flutuante sem cor, nem odor, nem forma.
A ave perde, uma a uma, as doces penas,
gastou as forças no caminho, gastou as cores na viagem.

Viu montes e vales, viu rios e mares, viu sóis e luas,
montanhas e abismos. Subiu ao cume, desceu às margens
de um rio que navegou com garra. Gastou os risos,
gastou as lágrimas, gastou os olhares e as mãos abertas.
Agora é apenas a ave; de regresso ao início, às origens,
à sua casa de partida, e de chegada. É ave de despedida,
perdendo as penas a uma e uma, como lágrimas de olhar sem ver.

É somente uma ave em cansado adeus.
(Mãe)







Lágrimas de lua

quarta-feira, janeiro 17, 2018

OLHO-ME POR DENTRO DE QUEM SOU

Olho-me por dentro da alma, 
percorro os espaços do meu coração,
encontro mansardas sem vivalma,
abertas ao sol, à chuva, à contradição.
É no meu silêncio completo que me encontro,
me descubro, que sou quem SOU
sem máscaras, sem roupagens de desencontro,
sem meias tintas, meias palavras, apenas ESTOU
tal como sou; mulher.
Com a dor, com a alegria, com a dúvida e a certeza,
com o medo e a coragem, com o sonho a amanhecer.
Olho-me por dentro da incerteza,
essência de todo o meu ser,
e arrumo, aos poucos, a vida, que passa sem se ater.

Olho-me por dentro e em mim desvendo
mistérios, brumas, ecos do que passou.
Não sei se me vejo inteira, nem se aprendo
com tudo o que a vida já levou.
Mas sei que é no meu  silêncio completo,
que de mim faço quem SOU.
Na viagem onde me descubro e prometo
não trair a essência que me criou,
dou por mim, em frente a mim mesma,
nua de tudo o que enevôa a crueza
da verdade que me corre nas veias, e ensimesma
a frágil alma que procura a leveza,
a paz de uma vida escrita de A a Z.
Olho-me sem filtro, sem quê nem porquê.

Olho-me por dentro da alma que sou
olho-me por dentro da vida que passou.

imagem retirada da net


Lágrimas de lua












terça-feira, janeiro 02, 2018

365 AS NOVAS PORTAS.... ABERTAS DE PAR EM PAR


imagem retirada da net


Abrem-se as portas de ouro, inundadas de sol rubro,
as esperanças atapetam os passos que descubro
e povoam as penumbras do que está por vir,
do que está mais adiante, logo ali, para nascer e colorir.

Abrem-se as portas de prata, inundadas de prateados luares,
elevam-se as palavras, as horas, as essências das almas e dos lugares,
vestem-se as fadas e os faunos de viçosas heras e enfeitiçadas papoilas,
as estrelas brincam  no céu, na terra sonham as moçoilas,
de olhos  de amoras silvestres, de lábios cor de romã;
bagos gulosos por colher, orvalhados de sequiosa manhã.

Abrem-se as portas de diamante, inundadas de faiscantes cometas,
reverberantes caminheiros em terra macia perfumada de doces violetas,
inocentes, tímidas, pairando sobre as águas de uma profunda lagoa
onde magos e princesas vêm murmurar sonhos. E uma gaivota entoa
o mais belo canto de amor, a mais bela balada de dor e solidão,
olhando do alto rochedo o infinito mar de segredos e quebrada mastreação.

Abrem-se as portas de um ciclo, novo, fresco, vibrante a iniciar,
desenham-se novos sonhos, escreve-se no infinito a palavra "começar",
como em jogo de criança, como em virginal desejo a crescer.
Abrem-se as portas da vida, nova, em botão,  ainda por florescer.


Lágrimas de lua