quarta-feira, abril 19, 2017

CHEGADA POR PARTIDA




Chegaste devagar como quem semeia a Primavera,
entornaste as tintas de um arco-íris de recomeço
com sabor a vida passada e cheiro de desconhecido.
Chegaste como quem nem tinha partido, nem se desvanecera
no grito de um silencio rouco, que rasga o peito que ofereço
à dor da mágoa: ao medo da perda e do caminho esquecido.
Chegaste: como se o mundo não houvesse, e a vida se apagasse,
como vela soprada por infantil alegria, ou por senil desapego.

Chegaste: nada mudou, tudo se perpetua como parafuso sem fim.
Mas eu quero-te! Com a alma e com a razão de quem guardasse
o maior tesouro na sombra do olhar, amante, amado. Eterno desassossego.
Chegaste sem chegar, porque não estás. Porque partes e te afastas de mim.
Chegaste devagar como quem semeia o Inverno,
escreveste a letra de um hino fúnebre, nos muros de um coração magoado,
chegaste pintando um prometido inferno.
Parte sem demora: sem olhares para trás, eu vou vestir-me de sonho esfarrapado.



Chegaste - devagar - a semear utopia. Vai - rápido - para esquecer a cobardia.



sábado, março 25, 2017

COMBOIO DA VIDA - SEM DESTINO...APENAS IR.





É tempo de nada esperar - o comboio da vida segue,
linha fora; Pouca terra - muita terra.
É tempo de seguir sem nada querer. Que a chuva regue
os canteiros de sementes, os mares, os prados - a serra,
onde se escondem os momentos passados, vividos,
chorados, desejados, sonhados. Os sentimentos esquecidos.

É tempo de um tempo que já não conhece o tempo.
É tempo de dizer ao tempo; Caminha, passa, corre: voa!
Que eu quero passar igualmente, esquecer cada momento,
apenas porque já foi: passou. Mas das profundezas do tempo ecoa
a voz da memória, da saudade, do que já foi - e não mais é.
Acelera comboio da vida! Não pares em apeadeiros, segue com fé.

É tempo de saber escrever novas letras, acender outras estrelas,
de aceitar novos mares e barcos sem rumo ou passado,
de percorrer os mesmos caminhos com novos olhos, sem querelas;
Ser eu, apenas eu; Mais ninguém. É tempo do amordaçado,
é tempo do deserdado, do perdido e angustiado: do morto,
do vivo, do triste, do esquecido e do lembrado. Neste porto,
onde ancorei o meu degredo, é apenas tempo de deixar; Abrir as mãos e partir.


segunda-feira, março 13, 2017

90 PÉTALAS DE ROSA PARA TI



Olá;

Hoje queria poder dar-te um abraço, tão grande, tão forte, tão bom, tão nosso. Hoje seriam 90 pétalas de rosa, e 90 ténues chamas rubras, e o teu sorriso, aquele que te enfeitava o rosto - meio tímido, meio triste - tão teu. Hoje são só as saudades que habitam este espaço que medeia o cá e o aí.

Hoje: daqui, onde estou a olhar o céu e as nuvens que encobrem este caminho que ainda não posso trilhar e tu já não podes percorrer. Hoje a lua brilha mais forte; É a tua luz que está por trás dela. Hoje as estrelas cintilam - alegres, quase dançam - és tu, desse teu lugar, que estás por trás delas.

Espalho nesta noite: daqui até aí, uma constelação de beijos - 90 - e um abraço que te faça sentir os meus braços e o calor que invade o meu coração. E sabes? eu sei que o vais sentir, porque quando o amor é maior que vida - ultrapassa a distancia, ultrapassa o silencio, ultrapassa a ausência dura de não te poder ver, tocar e sentir. Ultrapassa a própria morte.

AMO-TE MUITO, ontem, hoje e SEMPRE.




terça-feira, março 07, 2017

EXORCIZANDO LÁGRIMAS



Exorciza a dor que marca cada lágrima salgada
que pelos olhos se derrama como neblina matinal -
descendo, escorrendo -, saltitando as linhas do meu rosto.
Exorciza a distancia que medeia o soluço e a gargalhada,
porque assim se apaga o medo e o desterro intemporal.
Estende pontes de esperança e mansidão, esfuma o desgosto,
limpa a dor e acende um sol de perdão e de vontade férrea de querer.

Exorciza os anjos das negras noites sem sossego, vazias de solidão.
Exorciza as duras penas de erros que nos servem de lição.
Estende uma ponte de luz, constrói um porto de perdão,
fundeia o navio de um novo amanhecer, não feches a tua mão:
há mais vida por trilhar; Passos incertos, por certo, mas passos
rumo ao infinito que trazemos no coração. Deixa os compassos
da música: que não conhecemos, que não tocamos, mas que sabemos
de cor serem a valsa que trazemos nos pés; Os caminhos que percorremos.

Limpa a dor: acende um sol de perdão e de vontade férrea de renascer.

foto retirada da net


domingo, fevereiro 26, 2017

UM MAR MAIOR QUE VIDA


Quando há um mar que é maior que a vida, e a vida é um grão de areia: perdido na bruma de um querer não querendo. Quando um navio abandona um cais de partida, sem rumo, sem leme, sem sonhos – apenas morrendo. Apenas partindo na despedida.

Quando os olhos se perdem no horizonte sem fim: acreditando que não há impossíveis, lutando contra a névoa salgada da dura verdade. Quando as mãos se abrem vazias de mim: querendo um rumo, que nunca o foi, e só  impera a saudade – áspero espadachim.

Quando, na tormenta dos dias, as noites são clarões de memórias, e o coração arde, doendo, magoando, batendo em desordem. E o corpo cede em preces laudatórias. E a vida segue – correndo, girando – e os dias passam, e os anos mordem. As lutas por paz ainda são inglórias.

Quando um mar é maior que a vida, e as ondas – noutro mar – recordam uma partida. Os olhos perdem-se em adensado azul, bravio, doloroso; A um tempo amado e saudoso. E quando um mar é maior que o mundo inteiro, morto na despedida. De nada valem nem o mar, nem as ondas, nem a vida – que sigo de fugida.

Quando um mar tiver o dom da vida: quando o céu tiver o dom do oblívio, quando o sonho tiver o poder do querer…Então o meu vestido será de névoa sentida. A minha grinalda de dourado alívio, o meu sorriso de um novo amanhecer.
 

Há um mar, de profundo azul, onde habita o sonho,
onde se esconde o medo, e troa o vazio.
Há um mar que leva as memórias, que na areia deponho,
são pedaços de vida que um dia ruiu.
Há um mar, de vestido verde, que me embala a alma,
que me acolhe a dor, que aceita as lágrimas, salgadas de amor.
Há um mar, de cinzentas vestes, que me embala na calma
de cada onda mansa: de cada requebro da sua própria dor.
Há um mar, eterno e profundo mar, onde se esconde o querer,
onde permanece o sonho, onde a esperança habita.
Haverá, sempre, um mar para me lembrar que viver
é também sorrir, é também sonhar; Alma que ressuscita.