sexta-feira, outubro 13, 2017

ADORMECIDA ALMA



Encontro, nos desencontros da vida, uma garça fluída,
fugidia e breve, como uma suave brisa de um mar cobalto,
sem fundo nem idade.
Num sopro de verdade,
onde não habita nem alma nem coração, nem doce sobressalto.
Apenas uma imensidão de teias, pedaços de roupa puída
e fios de sonhos pendurados em descarnados galhos.
Na metade de uma rubra maçã; roída de invejado sabor,
escorrem o mel e o fel, lado a lado, irmãos de um destino
traçado a carvão, a tinta da china, embotados nos trabalhos
que mão humana esqueceu; no deslizar do desamor.
Afogando no mar, do cobalto mais puro, a raiz de um coração,
enterrando na areia, morna de solidão, as sementes de uma paixão.
Encontro, nos desencontros da vida, uma gaivota perdida,
numa ilha que, de tão silenciosa, ficou esquecida
e guardou, sequiosa, o limbo de uma alma adormecida.


lágrimas de lua

sexta-feira, outubro 06, 2017

DÓ, RÉ, MI - UM PIANO....

imagem retirada da net
Dó ré mi, martelam os dedos no piano
uma melodia que o sol traga e o vento espalha.
Pela janela escorrem acordes pelo jardim,
as notas elevam-se, dilatam-se; a melodia encalha
na sebe bem aparada e nos arroubos do jasmim.
Dó, ré, mi, depois um fá e um sol sustenido a preceito,
que o pianista sabe o que faz; arranca melodias
das teclas de marfim causticado de um piano ancião.


E as borboletas volteiam ao som de pios e cantorias
dos pardais e dos melros, e do pica-pau folgazão,
que bate o compasso no tronco onde vai fazer o ninho.
, ré, mi, sol, sol, la, si. Dó, dó, la, la, si. Sol, sol dó.
O bailado estende-se pelas dobras das horas a passar,
parece que o dia engrandeceu, soprou para longe o pó
que restava das cinzas de vidas passadas por catalogar.

E trinam as teclas marfínicas do piano uma valsa de arrepiar,
uma polca, uma rumba, um fox-trot aprumado,
no jardim tudo rodopia, tudo salta e pula e dança.
A melodia contagia, espicaça a vida e o sonho enfeitiçado,
arrebata a natureza arrasta-a na loucura do dia que avança.
Dó, ré, mi, martelam, ainda, os dedos no piano desta vida:

Ah como é bela a valsa neste jardim de partida.



lágrimas de lua

sexta-feira, setembro 29, 2017

MADRUGADAS DE VENTO NOVO


Vi nascer o sol por entre as nuvens,
levantei-me com as madrugadas de vento
e sacudi a poeira de tempo.
Escancarei as janelas do lamento
deixei voar as tempestades.
Ouvi a aurora que se levanta
e vi o despertar de novos sentidos,
espreitei um ninho onde a vida canta,
tomei nas mãos o renascer.
Traguei o dia num cálice de barro,
comi o pão que mãos saudosas cozeram.
Atei os sonhos na asa de um cagarro;
larguei-o ao vento - voa! Voa bem alto.
Fechei os olhos e senti o mar,
toquei as algas, beijei os nautilus,
trotei em cavalos marinhos de encantar.
Abri as asas, de gaivota anquilosada; e voei!
Voei com um hino na voz e vida no olhar.
O mundo é um lugar estranho onde habito
e desabito. Onde me perco e volta a encontrar,
onde a maresia traz poemas para além do mar.
E o nascer deste sol encasulou a força de querer,
vestiu de arco-íris a dança das palavras: deu-lhes cor,
pintou uma tela de sonhos a crescer.
Hoje o sol nasceu verde; nasceu rosado e azul,
nasceu de um paleta de pintor louco, poeta maior,
e elevou-se- enorme - rubro, do tamanho da eternidade,
ajoelhada e rezada, em silencio, no altar-mor
da orada da vida.
Vi nascer o sol por entre as nuvens,
e o dia, simplesmente: aconteceu.






lágrimas de lua

quarta-feira, setembro 20, 2017

UMA ESCADA...POR SUBIR?


A vida é uma escada por subir,
uma porta por transpor
uma janela por desemperrar e abrir.
Degrau a degrau, pé ante pé;
subir, subir sem medo. Apenas ir,
com a certeza de que a vida, essa
é, somente, uma escada por enfrentar,
íngreme, abrupta, uma guerra para travar.
A vida é só uma escada por subir,
e quantas vezes por descer,
e quantas vezes um desejo de sumir,
de partir sem deixar rasto.


Tão somente esfumar, suave diluir.
Subindo e descendo, em trôpegos passos,
escada de pedra, gasta, lisa, dura.
Escada de sonhos, no silêncio da loucura.
A vida é uma escada de gritos e sussurros,
de noites que se abrem em alvoradas,
de monstros, de fadas, de beijos e urros,
de dor; mas também de magia - de cor.
A vida é uma escada de corações casmurros,
e de verdades agudas rasgando as carnes.
A vida é uma escada de verde moldura,
a vida é um trilho entre as pedras e a lonjura.
A vida é uma escada por subir,
uma porta por transpor,
uma janela por desemperrar e abrir.
A vida é uma sombra de poema por compor.


lágrimas de lua




quarta-feira, agosto 30, 2017

PRINCESA DOS "LÍRIOS DO CAMPO"




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imagem retirada da net


Porque choram os teus olhos, princesa?
Porque não entranças os teus sonhos de menina?
Calças sapatos de refulgente leveza
e envergas a capa de uma invernosa tristeza.
Os anos lavaram as mágoas nas águas dos teus olhos,
branquearam os sonhos em campo de “alecrim aos molhos”.
Do teu castelo altaneiro olhas os “lírios do campo”,
vês o tempo correr incessante, marcado em torto relógio.
“Meu Deus, é tarde, é tarde!” – ainda mal desponta o dia,
perdes graça, perdes vida, perdes o sonho à porfia.
Olhas cada nova madrugada, choras cada novo ocaso,
enrodilhado o coração, pergaminhada a tua alma,
entranças esperanças mortas com esvaziada calma.
Vês nuvens de cobre e de chumbo, mares fundos, praias cegas.
Vês os barcos partirem sem rumo; gaivotas de asas quebradas,
sonhas com um alvo unicórnio, histórias; lendas encantadas.
Desfias o rosário dos anos como contas de fino âmbar,
bordas a doce matiz o pano do teu embotado viver,
e juntas as horas e os dias cozendo-os ao teu sofrer.
Passam os tempos, passando, pelo teu rosto de flor,
definham os tempos, definhando, no teu corpo por colher.
Nesta vida que não vives, ficam palavras encolhidas - a morrer.
Borda, linda bordadeira, princesa de um reino sem reinado,
tece um fio de ouro e prata, tece um sonho que é só teu.
Ah, princesa desterrada, não te afundes em breu!
Por quem choram os teus olhos, princesa?
Sai!  Veste-te de realeza.



lágrimas de lua